Introdução ao Helenismo


Tradição que seguimos: O que é Helenismo?





            A religião nativa da Grécia não tinha um nome, mas atualmente existem algumas nomenclaturas em uso: Hellenismós (cunhado pelo imperador Juliano), Paganismo Helênico, Politeísmo Helênico, Dodekateísmo ( o termo se refere aos 12 Deuses do Olimpo como pilares da religião, mas não exclui a rica diversidade divina do mundo grego), Reconstrucionismo Helênico (Reconstrucionismo é mais um método baseado nos dados históricos para se cultuar os deuses, e pode ser utilizado por devotos de outras vertentes religiosas). 
E simplesmente, Helenismo.

Origem do termo:

A Grécia, na verdade, denomina-se “Hélade” ou “Hellas”, e seus habitantes de “Helenos”.  “Gregos” era como os romanos designavam os “Helenos”.
Os gregos, que chamavam a si mesmos de helenos, atribuíam a origem do nome a Hélen (gr. Ἕλλην), um dos filhos de Deucalião e Pirra, o casal que sobreviveu ao dilúvio causado por Zeus para limpar a terra da raça violenta e corrompida que se instalara. Segundo a mitologia, Hélen foi um antigo rei da Ftia, região da Tessália, cujos filhos e descendentes (Doro, Aqueu, Éolo e Íon) mais tarde emigraram para o Peloponeso e deram origem às principais “raças” helênicas:

Doro → dórios
Xuto → Aqueu → aqueus
Xuto → Íon → iônios / jônios
Éolo → eólios

O termo “Helenismo” também se refere a qualquer criação da cultura helênica, como nas artes e literatura.

Aspectos gerais do Politeísmo Helênico: 

Eusebeia: Piedade

Para os antigos helenos, ser piedoso (eusebés) era respeitar os costumes ancestrais e da pólis (a antiga cidade-estado). Respeitar as leis justas diante dos homens e dos deuses, observar o culto e aos comportamentos rituais fixados pela tradição. O respeito e cuidado com os pais é outro ponto importante da piedade helênica.
Eusebeia é honra os deuses na medida adequada, sem excessos. Nutrir  devoção especial a determinados deuses, porém sem desmerecer os outros Imortais. É possuir uma relação saudável de amizade frente um ser que é superior, sem, contudo, temer exageradamente ou cair na dependência deles. Ser piedoso é caminhar numa via contrária a da Deisedaimonia, Superstição, ou seja, medo excessivo do além. 
A eusebeia se manifesta principalmente em ações, configurando-se nos ritos e na atuação social. 

(Foto: Celebração das Thargelias/2020)

Kháris: Reciprocidade

Kháris: Reciprocidade, beleza, alegria, deleite, bondade, boa vontade, graça, favor, benefício, benção, encanto, atração, apelo, elegância, graça, prazer, alegria, sagacidade, gratidão.
A relação com os deuses é baseada na Kháris e deve ser cultivada e mantida através dos atos cultuais, sacrifícios, oferendas diversas. Na maioria das vezes é algo tangível. Contudo, não se exclui apenas o realizar de uma Prece,dedicação de poema, etc., conforme a ocasião.. Dessa forma mantemos os deuses próximos de nós, e suas bênçãos também. Ou melhor: nós nos aproximamos Deles cada vez mais. A arte de presentear era muito importante na cultura helênica, inclusive na religiosidade. Agradar, presentear, sem necessariamente obter algo em troca. 
E amparados pela Kháris podemos fazer pedidos aos Deuses, o que não significa que isso os obrigue a realizá-los. 

Areté: Em busca da Excelência

A cultura helênica, através de suas diversas Vozes, exortam o ser humano à excelência, a uma vida equilibrada e  digna. Um ser humano sadio. 
Ser heleno é buscar viver com Excelência/ Virtude (Areté): para os muitos era o caminho para felicidade. Assim, havia as Aretai (pl. de Areté): Coragem, Temperança, a própria Piedade, Justiça, Sabedoria e muitas outras pontuadas por poetas, legisladores e filósofos. Ser piedoso é ser virtuoso, ser virtuoso é ser piedoso. 
Além disso, há as Excelências pessoais, nossos grandes pontos fortes. Helenismo é desenvolvimento pessoal. Refine seus potenciais e utilize os dons com os quais nasceu. Uns nascem com carisma, outros com facilidade de oratória, outros com pensamento estratégico. E você?
“Conhece-te a ti mesmo”
“Elogie a Virtude”
“Exercite a nobreza de caráter”
“Esforce-se com glória”
(Máximas Délficas)

Anthropismos (humanismo): Respeito e sensibilidade diante da condição humana. Respeito e benevolência a estrangeiros e menos favorecidos.
Euthyteta (franqueza, sinceridade, ser verdadeiro) e Parresia (honestidade): Em resumo, ser honesto, verdadeiro consigo e com os outros.  Coragem para arcar com as próprias opiniões e ações. 
Enkrateia (temperança, autocontrole): Saber ter autodomínio frente a disposições internas que podem levar a resultados desastrosos. Evitar a Hybris, Arrogância/Desmedida, aquela que arrasta a si mesmo e as relações para o abismo e destruição e violência.
Philia (amizade): dedicação e respeito, busca do benefício mútuo. Aristóteles afirma: "Quando as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas necessitam da amizade". 

Politeísmo

O Politeísmo reflete a riqueza, diversidade e multiplicidade da Vida. Significa que acreditamos na existência de muitos deuses, de categorias diversas, desde os Grandes Olimpianos, aos espíritos da natureza. 
Os Deuses helênicos não são “pessoas”, mas Potências que assumem forma humana. Temos ainda os daimones (seres divinos menores), o culto aos ancestrais e aos Heróis e Heroínas.
Reconhecemos a existência de deuses e entidades de outras culturas, os respeitamos, mas não significa que iremos cultuá-los.
Os Deuses são seres de natureza individual, cada um com suas particularidades, vontades e maneiras de atuação no mundo. Apesar disso, existem círculos filosóficos que  crêem num deus único e/ou que os demais deuses seriam Emanações Dele. 

(Foto: Celebração da Mounichia/2020)


Mito-Rito-Imagem

A religião dos helenos não surgiu de uma Revelação de profeta ou messias, nem repousa conhecimento absoluto e indiscutível sobre um livro sagrado. Não há sacerdócio que obtenha controle sobre o que se deve acreditar ou não, como ocorre no Cristianismo, por exemplo. 
Mito, rito e representação figurada eram as linguagens pelas quais a experiência religiosa dos gregos se expressava.
Para os Antigos havia uma tradição oral, os costumes dos ancestrais (NOMÓI), os mitos (Mythói), culto e crenças locais que podiam variar de cidade para cidade, sem que houvesse exatamente “certo ou errado”, mas ainda dentro de uma religiosidade comum à Hélade.
No Helenismo, o Mito é sagrado, o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial.  Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de algo, que não era, começou a ser. É sempre uma representação coletiva transmitida de geração em geração.
Contudo, os mitos devem ser interpretados com cuidado, e quase nunca de forma literal. Por isso, entre os helenos se desenvolveu a Interpretação Alegórica, que entende essas narrativas como simbólicas, a revelarem segredos sobre o mundo divino, a alma e o cosmos. Alguns possuem caráter didático e demonstram comportamentos esperados na época antiga, outros contam sobre nossa atitude para com o divino, o que é correto ou errado, entre outros.
(Foto: Celebração de Deméter/Abril/2018)

Kata ta Patria

Kata ta Patria, “de acordo com as tradições ancestrais”. Era extremamente importante para os Antigos. Os helenos seguiam as costumes de sua terra natal para cultuar os deuses. 
Hoje, o que tentamos fazer é nos inspirar nessas tradições, reviver o que for possível, sempre lembrando que Adaptações são inevitáveis.O importante é manter a essência, e na prática verá que não é difícil, mas exige senso crítico e inventividade.  Sem radicalismos. 
“Nada em excesso”, “Seja adaptável a tudo” 
(Máximas Délficas)
(Foto: Dionísia-Anthestérias/2018)

             Filosofia
            
        A Filosofia nasceu na Grécia e teve muitos representantes com grandes diferenças de concepções. A liberdade de pensamento e criação garantiu seu florescimento, e hoje possuímos um imenso acervo. Os filósofos foram verdadeiros investigadores, cada um tinha objetivos distintos: uns se engajavam em investigar o funcionamento da natureza, procurando causas internas, sem necessariamente intervenções divinas para os fenômenos. Outros buscavam definições para o que seria um ser humano virtuoso/excelente, ou o que era a Felicidade e como se alcançava. Os filósofos pretendiam encontrar respostas para as questões da vida. Filósofos não eram ateus. Apenas desejavam conhecer causas racionais e naturais para os acontecimentos da vida e da natureza. E outros, como os platônicos, ainda viam um lugar para a ação divina no mundo, sem necessariamente tentar afastar os deuses em definitivo de suas investigações.
            Com certeza, os mitos ofereciam uma primária concepção de mundo, e alguns filósofos a utilizaram, buscaram interpretações alegóricas entre outras. Contudo, diferentemente das grandes religiões atuais, o Sacerdote helênico não tinha papel missionário, nem de “guia de povos”, ou guia espiritual. Ele era responsável por administrar o templo de determinado deus e seu culto, festivais e etc.
            Para as grandes e pequenas questões da vida, nos reportamos ao mito ou aos filósofos e outros sábios. Todos temos liberdade para estudar e seguir o filósofo que se sentir mais em sintonia. Além de poder combinar o que melhor cada um produziu. Este é o espírito helênico que buscamos: o ser humano criador e excelente.
    Buscamos sabedoria nos mitos e filosofia, e em todos os pensadores da cultura helênica.


E, por último, mas não menos importante: O Helenismo não pretende de maneira alguma ressuscitar a estrutura social dos antigos. Sabemos que existia privação dos direitos das mulheres, sistema de escravidão, entre outros, e nada disso está em nossos objetivos. 
Estamos num momento da humanidade em que a Justiça Social se fortalece cada vez mais, apesar de alguns movimentos contrários.
Nosso compromisso é com a religiosidade dos antigos, seus Deuses, suas tradições, e ainda dentro de um contexto de adaptação à realidade atual, mas sem perder a essência. 


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